quarta-feira, 3 de julho de 2013

QUARTO ENCONTRO 04/07 - GÊNEROS E TIPOLOGIAS TEXTUAIS: COESÃO E COERÊNCIA

Todos os professores já vivenciaram a experiência de ler uma produção de texto dos alunos que não dizia "coisa com coisa". Isso acontece tanto em resposta a questões dissertativas, quanto em produções de textos com temáticas dirigidas.

Essa sensação nos remete a dois elementos fundamentais em todas as produções de texto: coesão e coerência.

Segundo Koch e Travaglia (2004), a coerência está diretamente ligada à possibilidade de estabelecer um sentido para o texto. Trata-se de "um princípio de interpretabilidade, ligada à inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e à capacidade que o receptor tem de calcular o sentido deste texto."

A coerência, portanto, estabelece uma unidade de sentido, pois, do ponto de vista do conteúdo, os elementos combinam-se, conectam-se entre si.

A coesão, por sua vez, refere-se à estrutura do texto: a ligação, a relação, os nexos  que se estabelecem entre os elementos que constituem a superfície textual.

Ao contrário da coerência, que é subjacente, a coesão é explicitamente revelada por marcas linguísticas, o que lhe dá um caráter linear. A coesão é sintática e gramatical, mas também semântica. Ela auxilia no estabelecimento da coerência, mas não é sua garantia.

Veja o texto abaixo, no qual o aluno, inspirou-se no poema "A pesca" de Affonso Romano de Sant'Anna:

O Show

O cartaz
O desejo

O pai
O dinheiro
O ingresso

O dia
A preparação
A ida

O estádio
A multidão
A expectativa

A música
A vibração
A participação

O fim
A volta
O vazio

Nesta produção textual, apesar de o conteúdo estar disposto em forma de lista, é possível perceber, do ponto de vista semântico, uma correlação entre os seus elementos. O autor escolheu a ordem dos enunciados numa sequência linear de acontecimentos possíveis envolvendo o que aconteceu antes, durante e após um show.

Se não tivesse optado por seguir o modelo do texto de Afonso Romano, a produção textual poderia ser esta:

O Show

Sexta-feira Raul viu um cartaz anunciando um show de Milton Nascimento para a próxima terça-feira, dia 04/04/89, às 21h, no ginásio do Uberlândia Tênis Clube na Getúlio Vargas. Por ser fã do cantor, ficou com muita vontade de assistir à apresentação. Chegando em casa, falou com o pai que lhe deu dinheiro para comprar o ingresso. Na terça-feira, dia do show, Raul preparou-se, escolhendo uma roupa com que ficasse bem à vontade durante o evento. Foi para o UTC com um grupo de amigos. Lá havia uma multidão em grande expectativa aguardando o início do espetáculo, que começou com meia hora de atraso. Mas valeu a pena: a música era da melhor qualidade, fazendo todos vibrarem e participarem do show. Após o final, Raul voltou para casa com um vazio no peito pela ausência de todo aquele som, de toda aquela alegria contagiante.


Embora os dois textos tratem da mesma temática, são muito diferentes, pois, além de o primeiro ser um poema e o segundo um texto em prosa, eles explicitam a relação entre os elementos de maneira diferente. Enquanto o primeiro trabalha com a coerência semântica, fazendo com que o leitor estabeleça a coesão e coerência por meio de seu conhecimento de mundo sobre o tema, o segundo explicita sintaticamente essas relações.

Ouça as músicas "O pulso ainda pulsa" e "Disneylândia" e comente sobre como a coesão e a coerência foram estabelecidas.







Agora é a sua vez: produza um texto semelhante a "O Show", no qual a coerência seja estabelecida pela sequência linear dos acontecimentos.

Segundo Naspolini (2009), a escrita assemelha-se à costura de um tecido: vários fios se juntam numa trama em torno de um fio principal - o fio condutor das ideias. Esse fio condutor é a estratégia eleita para começar, continuar e terminar a produção escrita. Algumas dessas estratégias revelam um grande desenvolvimento lógico, outras um desenvolvimento menor.

O encontro desse fio condutor é, sem dúvida, o princípio para que os alunos consigam estabelecer a coesão e a coerência em seus textos, pois só é possível dizer "coisa com coisa" quando realmente se tem algo a dizer.

Referências

KOCH, Ingedore Villaça, TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. 16 ed. São Paulo: Contexto, 2004.
NASPOLINI, Ana Tereza. Tijolo por tijolo: Prática de Ensino de Língua Portuguesa. 1.ª ed. São Paulo: FTD, 2009.

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